2.20.2007

Ela Mesma e as Outras


Ele entrou na casa dela meio desconfiado, como se fosse ser atacado por um cão ou dar de cara um casal transando na sala. Mas nada disso aconteceu, só havia umas cervejas em cima da mesa e um livro do Fernando Pessoa, poeta preferido dela, jogado no sofá. Ninguém tinha chegado, e ele, por isso, se sentiu mais à vontade. Com o tempo, os amigos começaram a chegar, aos poucos, e ele foi conhecendo um a um. A festa começou.

Muita birita, mas muita mesmo, nem ele, bem mais velho, já tinha ido a uma festa onde as pessoas bebessem tanto. Lá pela terceira grade, chegou o Anjo. Aí, ele começou a olhar torto, sem entender mais porra nenhuma. “Que caralho tá acontecendo aqui?” A verdade era que estava todo mundo tão bêbado que nem iam lembrar se fumassem um baseado ou dois, ou tomassem um ácido pra viajar. Mas pra ele, aquilo já estava absurdo demais.

“Ei, vem aqui, quê que isso?”. “Droga, conhece? Muito bom!”. Não, era demais, ele não tava entendendo nada e só estava lá pra ver onde aquela festa de merda ia acabar. De merda pra ele, ela tava amando! E acenderam, começaram a fumar adoidados, misturando tudo, e começaram a rir muito. E ele olhava impressionado. Esperaram um pouco e passaram pro ácido. “Ah, esse é bom! Pega meu laptop que agora eu termino o livro!”. E foi uma risada geral, afinal, no máximo, ela ia conseguir trocar as teclas e achar que o monitor era uma nuvem de chuva.

“O som…” Alguém lembrou do som. Botaram The doors no jukebox e deixaram rolar enquanto curtiam a “liga”. De repente, resolveram dançar, e ele, já estava pra morrer, achando aquilo o fundo do poço da degradação humana. Dançaram berrando: “...Now touch me baby, cant you see that i’m not afraid...?”. E no ápice dos lindos sonhos delirantes, elas se beijaram.

Era verdade que eles não se viam há muito tempo, mas virar lésbica, ah, isso sim era absurdo demais! Ele olhou perplexo e quando o beijo cinematográfico acabou: “ei, isso é cotidiano?”. “Querido, cotidiano é uma música do Chico Buarque.” E ele ficou impressionado de ela ainda conseguir lembrar disso.

6 Comments:

Blogger Caleidoscópio said...

Adorei! Direto, e simples, mas com os detalhes fundamentais. enfim, pós-modernindade, bem transfigurada aqui... Não é?
Um bjo Grande. Mari.

4:47 PM  
Blogger Guto said...

EXCELEEEEEEEEEEENTE esse texto!

huahauhauhauhauha eu dei muitas risadas na frente do computador lendo.. a parte do som dá pra imaginar perfeitamente rolando numa festa junkie, né amor? ^^

très bien, mon amour! te amooooo linda, e parabéns de novo! =*

2:06 PM  
Blogger Leo Nóvoa said...

Adoro contos lisérgicos!
auheuahhe
Vê lá o meu!
=D

9:53 AM  
Blogger Lívia Mendes said...

adoro esses teus textos que sempre parecem "causos" que aconteceram com alguem e tu resolveste contar pra gente.

beijo, maaay

10:31 PM  
Blogger Camila Barbalho said...

Ameeeeeeeeei o final.

Muito tu, definitivamente.


Beijo, ruivão!

1:42 AM  
Anonymous Ana Paula Loureiro said...

hauhauhuahuahuahauhuahuah...doida!!!

1:51 AM  

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